Sou gorda e diabética

Desde que comecei a escrever sobre representatividade gorda e gordofobia, a desculpa mais usada para disseminar a gordofobia é a falsa preocupação com a saúde dos gordos, como se estes fossem santos da dieta, bons samaritanos do exame de sangue, super herois do controle de glicose e a gente não cai mais nisso. Bem, para provar que isso é só um falso argumento, vou expor a minha vida mais do que eu imaginei que iria: hoje eu me declaro diabética.

A minha diabetes é do tipo II (não insulino-dependente). Isso quer dizer que meu corpo dá uma bambeada na produção de insulina, mas eu não preciso injetá-la no meu corpo. Pelo menos é como eu entendo.

Para aqueles que já começaram com “OLHA LÁ EU TO FALANDO TODO GORDO É DOENTE!”, sinto chover na sua parada, mas eu tive diabetes desde quando eu era magra. Sim, eu era uma pessoa magra mas como não tinha barriga chapada e tinha uns pneuzinhos nas laterais, as pessoas me chamavam de gorda. E eu hoje sei que eu não era gorda. Hoje eu sou.

Desde aquela época, enfiando remédios para emagrecer no meu corpo, substitutos sintéticos, sopas propagandeadas como saudáveis mas na verdade eram uma porção generosa de sódio e por aí vai, meu corpo começou a reagir de uma forma negativa. Esse monte de coisas erradas entupindo meu corpo unido a dietas completamente loucas e sem qualquer tipo de acompanhamento médico não podiam resultar em outra coisa senão uma doença que já é genética na minha família. Não seria novidade e nenhum sorteio. Era fatídico e eu não me livrei.

O meu dextro no caso altera de acordo com o meu emocional. Por isso cuido MUITO desta parte por mais que pareça que o universo às vezes me sacaneia e testa meus limites. Além disso, sim eu saio da linha, como umas besteiras cheias de açúcar e sódio, mas logo eu volto ao normal.

glicemia

Como vocês podem ver, sou eu quem faz o controle diário. É meu dedo que espeta 3x ao dia. É a minha mão que coloca a qualidade e a quantidade certas no meu prato. Sou eu quem marca endocrinologista 1x por mês, quem vai à consulta e, fora eu, apenas a minha médica me ajuda a controlar a doença. Eu controlo quantidade e qualidade da minha alimentação. Eu me trato com carinho e amor. Eu respeito os limites do meu corpo. Eu faço meditação para controlar o emocional. Eu evito muitas coisas por algum tempo (mas não fico passando vontade). Eu cuido da minha saúde mesmo tendo uma doença que provavelmente vai me acompanhar pelo resto da vida. É assim que eu vivo.

Agora vem cá. Notou que falta alguma coisa? Se não notou eu vou dar uma ajuda. O que faltou no meu relato é VOCÊ. Sim. Você. A sua presença. Os seus cuidados. Faltou a sua pessoa na minha vida. E sabe o que isso significa? Que se você realmente fosse alguém preocupado com a minha saúde, você estaria fazendo tudo isso por mim.

Antes de continuar, faça uma coisa: ligue para o banco e cheque o saldo da sua conta. Está tudo certinho? Falta alguma coisa? Acrescentou alguma coisa? Eu imaginei… Olhe para o seu corpo. Sumiu algo? Apareceu algo? Interessante…

Como você pode ver, a minha vida, a minha diabetes, a minha saúde, não altera em nada a sua vida. E a sua falsa preocupação com a minha saúde também não muda em nada. Meu meu dextro continua dando alteração, meu dedo continua sendo picado 3x ao dia, eu continuo tomando meus remédios, fui eu quem marquei minha consulta, sou eu que vou até a consulta na próxima quinta-feira e – a parte mais chata – sou eu quem vai pagar a mensalidade do meu plano de saúde.

Sabe, querido gordofóbico, a gente sabe que você não está preocupado com a minha saúde. Você só não gosta mesmo de ver uma gorda feliz porque de alguma forma você acredita que só pessoas magras têm direito à felicidade.

Você não é médico. Você não se forma em medicina assistindo 12 temporadas de Grey’s Anatomy e 8 temporadas de Dr. House. E se por acaso você é médico, endocrinologista, nutricionista, seja o que for, você não foi o profissional que EU designei para esta função na minha vida. Isso quer dizer que para mim a sua opinião continua sendo algo não solicitado, assim como qualquer nude que venha a calhar no meu inbox.

Agora que vocês sabem que eu sou diabética – diferente das outras adm que são completamente saudáveis – a vida vai continuar sendo a mesma. Não vai alterar em nada na vida de vocês, nem na minha, nem na de ninguém.

Eu sei que vocês vão continuar enchendo o saco com o mesmo papinho fajuto, a gente cai continuar ignorando e a vida vai continuar. Porque o meu trabalho aqui não é convencer vocês de que temos o direito de ser felizes, mas mostrar para a pessoas gordas que somos felizes, podemos ser o que quisermos e isso não tem mais nada a ver com ninguém. Eu só quis mesmo mostrar que vocês podem até continuar com esse disco arranhado, mas que a sua incapacidade de mudar a minha vida e a minha opinião é algo verdadeiro.

Em outras palavras: vai ter gorda feliz sim, diabética ou não.

Kisses ❤

 

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