Qual é o problema de gostar de comida?

Sei que estou sumidinha aqui, mas estou voltando à ativa com um tema que anda me incomodando faz alguns meses e hoje eu quero descascar esse abacaxi. Aliás… Falando em abacaxi…

Sempre que eu posto alguma coisa relacionado à comida na fanpage, aparecem algumas pessoas que militam contra a gordofobia me acusando justamente de que? De gordofobia.

Eu sei que associar ser gordo com uma única visão de “comer tudo e não se exercitar” é uma prática gordofóbica sim. Mas será que TUDO relacionado a comida, a gostar de comer, tem que ser visto como gordofobia?

Pare e preste atenção: Quantos gordos você vê trabalhando em grandes redes de fast food? Quantas imagens de jantares, de pessoas comendo, de qualquer coisa relacionado a comida de uma forma positiva, você vê pessoas gordas sendo representadas? Caso não tenha reparado, eu te conto: quase nenhuma vez.

Uma vez conversando com uma amiga que faz seleção para empresas, ouvi ela dizer que as redes de fast food pedem para que não contratem pessoas gordas. Por quê? Porque as pessoas que vão comprar não podem olhar a pessoa e associar os lanches àquela imagem gorda – logo “doente” – para não desistirem de comprar. Obviamente uma visão gordofóbica, porque eu sou gorda e quase nunca como em um lugar desses (salvo quando eu estou realmente com aquele desejo de comer isso, então não me privo).

Isso acontece frequentemente com as imagens de propagandas também. Isso porque o mundo está neurótico. Isso porque a ditadura da magreza saiu do controle.

Hoje, incrivelmente meu dia de folga, eu resolvi sair um pouco das redes sociais e passear. Quando entrei em casa, vi umas 18 marcações de uma mesma matéria da Vogue Brasil, de 3 anos atrás, que não sei por qual motivo foi repostado hoje. Uma matéria cujo título é:

Comer pra quê? Fazer jejum está na moda. Saiba mais sobre a dieta da vez

(AVISO DE GATILHO NA MATÉRIA: TRANSTORNOS ALIMENTARES)

Quando se fala em deixar de comer por até DEZ DIAS para poder EMAGRECER, podemos ver que a comida deixou de ser algo vital para ser um vilão. Deixou de ser coisa de magro para ser coisa de gordo. “Fazer jejum está em moda” além de camuflar e incentivar uma perigosa doença  – a anorexia – só nos mostra que as pessoas que gostam de comer são vistas como desleixadas, fracas, desordeiras, irresponsáveis e qualquer outra coisa que você queira imaginar. Gostar de comer is the new “você não se controla”.

 

Ok, corta pra mim.

Quando uma pessoa assume que gosta de comer, isso não quer dizer que ela passe o dia todo comendo toneladas de comidas gordurosas, cheias de sódio, açúcares, corantes e outras bagaças industrializadas (tais como salgadinhos ou proteínas sintéticas – hmmmm). Isso sequer quer dizer que ela seja de fato uma pessoa gorda. Ela pode ser magra e gostar de comer. Ela pode ser gorda e gostar de comer (EU EU EU!!!). Isso não está ligado ao tamanho do seu corpo.

Todo esse tempo que passamos quebrando tabus, ideias errôneas sobre pessoas gordas, ressignificando frases e palavras, não paramos para ver o quão importante é assumir que sim, nós gostamos de comer (estou falando de pessoas que GOSTAM DE COMER).

Eu sei muito bem que uma pessoa magra que diz que ama comer jamais será tratada como uma pessoa gorda que gosta de comer. Assim como uma pessoa magra que usa biquíni jamais será tratada como uma pessoa gorda que usa biquíni. Assim como uma pessoa magra que faz sexo jamais será tratada como uma pessoa gorda que faz sexo. E por aí vai.

Entendam de uma vez por todas que as pessoas magras jamais sofrerão o que nós sofremos. Então nem por isso vamos passar a vida escondendo o fato de que sim, gostamos de comer (mais uma vez estou falando com pessoas gordas que gostam de comer e tocam o foda-se com o que vão dizer).

Depois de ver muitas militantes pisando em ovos com esse tema, eu fiquei pensando eras nesta foto da Tess, que já tem um tempo, mas que sempre me inspirou:

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(Pra cego ver: Imagem Tess Holliday, modelo plus size, tirando uma selfie em frente ao espelho usando uma camiseta cropped azul escrita em branco “Forever Hungry” que significa Eternamente Faminta, com um casaco de pelúcia de oncinha e fazendo um V de Vitória com os dedos)

A Tess Holliday, minha maior inspiração plus size da vida – e quem deu o apoio necessário para que eu pudesse de vez desencanar das neuras que eu tinha sobre meu próprio corpo através da representatividade e de suas entrevistas – nunca teve problemas para tirar foto com comida. Ou tirando uma onda como com esta camiseta escrita “Forever Hungry” (Eternamente faminta). Ela sempre manteve uma atitude do tipo “Eu sou gorda, as pessoas vão me encher pra sempre por isso, então qual o problema de eu assumir que gosto de comida? Vou esconder isso pra que, se mesmo eu não comendo, vão falar que eu adoro comer?”. Claro, ela não disse isso (pelo menos eu nunca vi nada sobre isso). Mas essa atitude dela é simplesmente maravilhosa. É tocando o foda-se na nona sinfonia da mais bela forma que ela poderia ter.

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(Pra cego ver: Tess Holliday vestida com uma peruca verde, um sutiã branco tomara que caia, luvas brancas, saia de rendas em tons de roxo e lilás, em frente a uma mesa lotada de cupcakes e rosas cor de rosa)

Acho que temos que parar um pouco e pensar em ressignficar mais coisas ao invés de ficar colocando mais neuras na cabeça das mulheres. Neuras que já não precisamos mais pois já temos o suficiente das indústrias de moda e estética que ganham em cima da nossa insegurança, neuras e outros problemas.

A partir de hoje, disponha-se a quebrar mais esse tabu. Afinal, criminalizar gordo que assume que gosta de comida nada mais é do que a própria gordofobia.

Beijos ❤

 

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