Afinal, o que é ser normal?

Ontem me deparei com um comentário de uma amiga enquanto estávamos falando sobre como somos julgadas pelos nossos corpos e ela disse que a galera fitness é considerada “normal” (sim ela usou aspas) pela sociedade e complementou com uma pergunta que ficou na minha mente:

Afinal, o que é normal?

Sabemos que ser normal todo mundo é, ou talvez ninguém seja, mas a questão central é que não existe o grupinho dos normais e o grupinho dos anormais. Bom, pelo menos não deveria existir.

Continuando com o comentário, ela disse que “preconceito vem de todos os lados, cada um absorve o que quer. E isso, querendo ou não, um completa o outro. Mas antes de prosserguirmos, quero fazer um pedido com o maior amor do mundo: não julguem.

Nós que estamos em um processo de empoderamento, muitas conhecemos e até convivemos com a militância, que enfrentamos face a face o preconceito, a gorfodobia, as mais diversas formas de violência, já estamos acostumadas e já temos uma visão diferente dessa. Algumas de nós – como eu – não tinham esta visão antes e de fato, bastava “selecionar” o que você absorveria ou não. Pelo menos eu acreditava nesta teoria. Então não julguem, não condenem. Atenham-se ao texto e vamos seguir em frente.

Buscando no dicionário o significado de “normal”, encontramos:

Conforme à norma

Buscando o significado de “norma”, encontramos:

Exemplo, modelo

Buscando o significado de “modelo”, encontramos:

Aquele a quem se procura imitar nas ações e maneiras

E é aí que eu quero chegar.

Na sociedade atual, quais são as formas, ações, maneiras, tudo a que se procura imitar?

MAGRO BRANCO CISGÊNERO HETEROSSEXUAL 

A partir daí conseguimos entender que, se não formos aquilo que a sociedade considera normal, sofremos um tipo de preconceito que não dá pra escolher o que absorver. Isso porque tais preconceitos envolvem violência e cerceamento de direitos.

Considere uma pessoa que passou entre os 5 primeiros lugares em um concurso público. Fez todos os testes, exames, tudo o que foi pedido. A nota, uma das mais altas entre os candidatos. Então, quando ela está com os documentos prontos para a contratação, informam a ela que o processo seletivo dela será interrompido por ter IMC superior a 40. Consultando os requisitos do concurso para a contratação, vemos que não há nada escrito sobre peso, altura, IMC, nada. E mesmo assim ela foi impedida de tomar posse do cargo. Isso é preconceito. Isso a fez perder uma oportunidade de emprego que ela se esforçou para conseguir. Isso ela não pôde dizer “Eu escolho não sofrer este tipo de preconceito, me contrate!”. Isso ela não teve chance.

Considere uma criança de 10 anos gorda que está na quadra de esportes do colégio, o professor sai deixando a turma sozinha por um minuto, e muitos garotos se juntam ao redor dela, a levam para o meio da quadra e gritam CHUTA CHUTA ELA É UMA BOLA DE FUTEBOL CHUTA! Ela não teve a chance de dizer “Não quero que me machuquem”.

Considere todos os crimes de ódio que acontecem todos os dias. Ninguém escolhe sofrer aquilo.

Entendemos que o discurso de todo mundo é normal ou de perto ninguém é normal é muito importante para nos ajudar a quebrar barreiras e preconceitos. Mas devemos lembrar que para uma sociedade intolerante como a nossa, se você está fora do considerado normal, você ainda pode sofrer com um preconceito que você não tem escolha.

Isso vale para nós também que, mesmo estando em um processo de desconstrução e empoderamento, temos a tendência de mostrar que achamos tudo normal. Não que achamos algo anormal. Mas isso invisibiliza muitas dores.

Da próxima vez que vir alguém que sofre um tipo de preconceito que você não sofre, tenha empatia pela pessoa. Ouça, entenda, conforte, empodere. Afinal de contas… Quem é normal?

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